20 de agosto de 2013

NOTÍCIA: Oscar Niemeyer, digitalização de acervo (RIO)

Oscar Niemeyer dispensa apresentações. A beleza de sua arquitetura também não pede justificativas. Ainda assim, era com o que chamava de “explicação necessária” que o arquiteto apresentava aos clientes seus projetos. Em álbuns onde fazia os primeiros desenhos e croquis de uma obra, um pequeno texto, também escrito à mão, detalhava os objetivos de cada elemento do projeto. E era durante esse processo de escrever que ele amadurecia suas ideias e percebia a necessidade de alterações aqui e ali.

A partir do mês que vem, as explicações escritas pelo arquiteto, seus álbuns, desenhos técnicos e croquis começam a ser digitalizados. Na primeira fase, que deve durar quatro meses, cerca de seis mil documentos já catalogados ganharão o formato digital. Ao mesmo tempo, começa um processo de tratamento e catalogação dos projetos que estavam no escritório do arquiteto, e que, posteriormente, também serão digitalizados. Ao todo, são quase nove mil documentos que compõem 342, dos 600 projetos produzidos por Niemeyer desde 1938.

Centro Espiritual dos Dominicanos. Projeto para padres franceses, de 1967, nunca foi construído. Divulgação/ Fundação Niemeyer.

— Hoje, só cerca de 2% da obra do Oscar está digitalizada. O objetivo é atingir 100%. Ao menos da parte mais valiosa que inclui os desenhos técnicos e croquis — explica Carlos Ricardo Niemeyer, superintendente da Fundação que leva o nome do mestre e seu bisneto. — O fundamental é que qualquer pessoa poderá ter acesso a esses documentos que, por serem muito delicados, não podem ser manuseados. Além disso, mostram o processo de trabalho dele.

O acervo reúne os primeiros desenhos das conhecidas obras do mestre, mas principalmente centenas de projetos que jamais foram construídos e permanecem inéditos ou são pouco conhecidos pelo grande público. Um conjunto tão importante que ganhou, em junho, o registro internacional no Programa Memória do Mundo, da Unesco, que tem como objetivo a preservação de arquivos com relevância global.
O acervo já tinha os registros nacional e regional do programa, diz Vitor Manoel Marques da Fonseca, membro do comitê internacional de assessoria técnica do Memória do Mundo:

— Além da parte técnica da obra de um arquiteto reconhecido internacionalmente, esse acervo tem uma abrangência que ultrapassa a arquitetura. É artístico. E tem uma integralidade rara.

Para realizar o projeto, a Fundação Niemeyer recebeu R$ 650 mil da Fundação Itaú Cultural, captados através da Lei Rouanet. O dinheiro será usado na contratação da equipe que começa a trabalhar em setembro e para a realização do projeto, que deve estar concluído até junho do ano que vem.

— Já fizemos projetos parecidos com a obra de Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas queríamos ampliar nosso universo de atuação no campo cultural. E o acervo do Niemeyer é certamente um dos mais importantes da arquitetura mundial. Por isso, queremos concluí-lo no momento em que o Brasil estará no centro das atenções, com a Copa do Mundo — diz Eduardo Saron, diretor do instituto Itaú Cultural.



Além do acesso via site dos arquivos, o que deve começar a ser disponibilizado em janeiro, a digitalização vai permitir, ainda, a produção de um livro, a ser lançado também no ano que vem, e a realização de um seminário com debates em dezembro deste ano, em São Paulo. Também pela capital paulista, no Itaú Cultural, começará, em junho de 2014, uma exposição, que, três meses depois, em setembro, seguirá para o Rio de Janeiro, onde ocupará o térreo e o primeiro andar do Paço Imperial.
A curadoria é do arquiteto Lauro Cavalcanti, diretor do Paço, que já começou o mergulho nos arquivos, para escolher o que será exposto. O número de obras ainda não está definido, mas além de alguns desenhos originais, serão exibidas parte do material digitalizado e ampliações de obras conhecidas e também de inéditas. E serão criadas maquetes de como teriam ficado algumas dessas obras, se tivessem saído do papel.

— A percepção do que é a obra de Niemeyer vai mudar a partir da divulgação de seu rico acervo. É como se, além das nove sinfonias de Beethoven, nós tivéssemos acesso a outras 30 — ressalta Cavalcanti.

E uma das coisas que surge desses documentos, é um Niemeyer que persegue determinadas formas e linhas. O desenho de um projeto não realizado é aproveitado mais adiante, como aconteceu com o Museu de Arte Contemporânea (MAC), de Niterói. A flor, que para muitos é um disco voador, surge, na verdade, de uma pirâmide invertida que já havia aparecido no desenho de outro museu. Este, de 1950, pensado para as montanhas de Caracas, é, para alguns estudiosos da obra de Niemeyer, um de seus melhores projetos.

— Essa evolução é uma característica muito presente, e esse é um dos pontos positivos do projeto — diz Cavalcanti.

Da Barra ao Negev, acervo conta as histórias guardadas de obras que ficaram no papel. Mudanças feitas em projetos realizados também poderão ficar mais conhecidas pelo público com o acesso aos arquivos pela internet. O Centro da Barra é um exemplo. O projeto feito por Niemeyer para a região pedia que se evitasse a construção de lojas e comércio próximos às torres de habitação, que seriam 75 e deveriam ser erguidas “num grande parque arborizado”, como ele mesmo escreveu ao lado de desenhos do projeto.
A ideia era que houvesse um setor destinado exclusivamente ao comércio e lazer numa rua que seguiria para o mar e seria um “local cheio de vida e movimento, propício aos encontros e contatos, contrastando favoravelmente com a tranquilidade e o sossego das áreas habitacionais”. O resultado todos conhecem. Apenas três dessas torres foram erguidas, duas voltadas para a Avenida das Américas e outra para a praia. Uma delas, a H ou Abraham Lincoln, nunca foi finalizada e é motivo de disputa judicial até hoje entre compradores. Além disso, as três torres tiveram as fachadas tão modificadas durante a construção, que Niemeyer não se orgulhava nada do resultado final.

— Nem dá para considerar o que foi feito como uma obra do Niemeyer. Houve uma apropriação indevida e uma total desvirtuação do projeto, que era bem apropriado à região — analisa Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial.

Os arquivos ainda trazem à tona facetas menos exploradas como a de um Niemeyer que em 1964 planejou uma cidade em pleno deserto de Negev, em Israel, e já mostrava preocupações comuns aos urbanistas de hoje. O plano de Negev previa, por exemplo, que os moradores poderiam ir a pé para o trabalho, a escola, o lazer, o comércio. Nada deveria estar a mais de 500 metros de distância, para que ninguém precisasse se preocupar com “os perigos do trânsito de hoje”, escreveu ele, em mais uma de suas explicações.

E o acervo ainda relembra histórias como a recusa do Governo, no período militar, de construir em Brasília o aeroporto em formato circular desenhado pelo mestre. “Provavelmente”, segundo Cavalcanti, “mais por razões políticas contra o Niemeyer comunista, do que arquitetônicas”. E traz a público centenas de desenhos jamais construídos como o do Centro Espiritual dos Dominicanos, que seria na França, e residências espalhadas por locais tão diferentes como Rio, Bruxelas, Escandinávia.


Fonte: O Globo Online
Publicado: 18/08/13 - 18h30 por KARINE TAVARES (EMAIL)

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